6 de abril de 2011

. a menina e o sol .

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vi o corpo dela no fundo do quintal. vi a pele como que pegando fogo, de tal maneira que ela se iluminava toda. vi o corpo dela acariciando a alma. vi o seu olhar por entre os olhos fechados da menina. vi a menina se entregar sem medo, encostada na parede, lá no fundo, como se o sol entrasse mesmo. pelas peles, poros do corpo, todo. e a menina se abria toda pra receber o sol. o sol queimava a perna, a cocha com a calça encolhida entre os ventres. e os braços se esticavam todo, reluzindo a brancura dos dedos, dos ombros. vi o corpo da menina se mexer, como quem faz amor. a menina estava fazendo amor com o sol. no fundo do quintal. tinha um rosto suavemente concentrado, tinha um gozo suavemente disperso, por se concentrar de mais, e mais, e mais. em si. a menina recostava as costas suadas na parede. sentia o chão com a palma das mãos abertas. como ela... to da a ber ta a menina dela. quase nua. toda sua. a menina enfim, sorria. com o corpo inteiro quente. esparramado-ausente, como quem quase flutua. corpo e alma ali eram um só. aquilo era mesmo um orgasmo. múltiplo. como quem se derrete nu. e por inteiro.


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. nó cego .

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acordei e continuei deitada
não por que queria
mas, porque não conseguia me mover

o corpo pesando vida

era como se o corpo pesasse toneladas
é como se o corpo tivesse acordado sem alma
e por isso não podia se mexer

e por isso queria

os olhos olhavam mas não viam nada
o ouvido escutava o que se passava ainda no sonho
a boca seca respirava o ar do corpo

todo

o corpo confuso entre o tudo e o nada
entre o sonho e a realidade
entre a morte e a vida quase apagada

pesando no corpo

não... bom lembrar que isso não era o sonho
razoável saber que a vida se lembrou
doendo agudo bem no meio do corpo

as entranhas deram nó cego

e então o corpo parado por horas a fio
no fio da meada, pensou dormir
e acordar na mesma posição durante dias

dia-a-dia

dias se passaram naquele momento
o mundo girou centoevinte vezes
e o corpo foi todo e tudo em questão de minutos

segundos
milésimos
milímetros ausentes


de tempo


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12 de outubro de 2010

. velhas palavras sempre novas .

. de todo modo . parece que liberdade é o desapego das coisas mesmo... de todas as coisas, sabe? . desapego do outro . do mundo . das coisas que se afirmam como inevitáveis . como imprescindíveis . desapego de qualquer conceito . desapego de si mesmo . dessa idéia de ter que definir-se pra si ou pro outro . deixar passar . porque tudo passa mesmo, né? . de todo modo . pra alguns liberdade nem existe . e eu até entendo... . essa coisa das palavras . dos sentidos que damos ao mundo com elas é das piores prisões, né? . pra todo caso entre os limites e deslimites da palavra liberdade . há quem não conjugue liberdade no tempo . há quem crie liberdade como verbo . e há quem acredite também que liberdade é simplesmente sair por aí sem caminho certo . andando por aí como andarilho de caminhos inexistentes . correndo ou voando . há quem acredite na liberdade como a nudez do corpo . não do corpo biológico . não da ausência de roupa ou qualquer coisa que seja pra esconder o que não se quer mostrar do corpo . mas a nudez de não ter o que esconder . de não temer em mostrar nada . porque ninguém está olhando . ou se olhar que olhe . que olhe e veja . porque há quem acredite que liberdade é não ter medo do ridículo também . sei lá . talvez a maior prisão seja essa: se apegar ao conceito de liberdade . se apegar à liberdade como conceito impraticável . e dizer-lhe como palavra . e praticar-lhe como palavra dita . porque falar é fácil... e por isso todo mundo não para de falar . de todo modo: desculpe a falta de sentidos . mas ando procurando a falta de direção . todas as direções são bem vindas no momento . não importa pra que lado for... .

. só a gente sabia, mais ninguém .

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. das mortes impensadas . da mistura indiscreta entre as dores e alegrias . das saudades incansáveis . um sorriso leve num corpo cheio de peso . o corpo pesado cheio de vidas . das intensidades . das palavras escritas . um diário . uma música sempre ativa dançando na ponta da língua . um livro marcado dentro da mochila . uma paixão . um amor . uma dança . um samba . um abraço . e muitos silêncios . dos silêncios . rudes silêncios . o da carne morta . depois de viva . depois de vívida . o da pele fria . depois e depois e depois... e depois? . sua cor é pálida . seu silêncio bruto . um ponto e vírgula . um susto . surto de poesia . e depois e depois e depois... e depois? . não importa tanto . o que importa mesmo é o tanto que se vive . nem o tempo importa . o que importa é a intensidade dos atos . a espontaneidade das rimas . o olhar que brilha ainda que cheio de caos . das metades que partem . das metates arrancadas . afastadas . que moem . que dóem . difusos . confusos . lágrimas engolidas pelo riso . e depois... e depois que o que importa é o que você deixa plantado . mais ainda do que o que colheu . porque levar... você não leva nada . e pra lugar nenhum . das vidas abstratas . das mortes concretas . a estranheza densa da simplicidade . da precisão tensa de um termo sem verbo . ...porque viver não basta .

. visita .

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asaudadeveiovisitaracasadasaudade
trouxeocheirodebrisafrescanacidadeseca
trouxeumaredecoloridaumacafeteiravermelha
trouxeatéadoçuradevóvoandopelasestrelas
asaudadetrouxepalavrassoutaseumjeitooutrodedizernovaspalavras
quesãosempreasmesmas...
palavrasescritascantadasfaladascaladas
trouxeumasletrascoloridasnaestantedecaixas
ocontornodorostosemnadadesenhadonaparede
trouxeumasflorescompradasnafeira
umcarrinhodefeiranovopracarregarasfrutasfrescas
asaudadetrouxeumpasseiopelacidade
trouxeaquelesotaquemisturadoderecifecomriodejaneiro
trouxeoalmoçocomdendêeleitedecôcocomtrêsdiasdedordebarriga
trouxeavontadedenãoiraotrabalhonemasaulas
trouxeavontadedeficaremcasasesentindoemcasacomaspalavrasquegosto
asaudadetrouxeoaconchegodolar
nãodolarcomendereçoenumeroderua
masdoprópriocorpocomocasadesaudadesacumuladasacadadia
asaudadetrouxepoesiasconjuntas
novosamores
sinfoniaderoncosnocolchãoespalhadonoquarto
asaudadetrouxeofato
osimplesfatodequequandoasaudadevem
elatraznamochilacarregadaderoupaocorpotransbordandodesaudade
asaudadetrouxeosvelhoscasosàtona
acertezadequesãopoucososquetefazemsesentiremcasa
asaudadetrouxeoscabelosdredadoseosilêncioleoninoquehojemoraemararas
asaudadetrouxepoucoespaçoproquartocheiodemalasesapatos
asaudadetrouxeumlivronovo
asaudadetrouxeaindamaissaudadepracasadasaudade...

. saudade maldade .

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asaudadeandadechineloentreosprédios
atreavessaaruaarranhandooscarros
sentanacalçadaefumaumcigarroolhaa
fumaçasobecoelaesedisolve
asaudadeescorreentreosdedoscorre
porveiastiraoardopulmãofazdocorpo
acidadedasolidãoatormentaoestômago
efazdoventreasuaprisão
asaudadeépalavraquesódigerequemtem
coragemintestinalporquesaldadesairasgando
ocorpotodosaipesandoemtodaapelecadaporoemcadasopro


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. sorriso .

. e tao bom descobrir o que se quer fazer no lugar onde o corpo se encontra . e tao bom pousar um pouco em si mesmo . mesmo que ainda se continue voando . sem parar . e tao bom quando as coisas acontecem de uma forma que estica a boca ate as orelhas e deixa os olhos brilhando sem o que ou porque nem pra que . basta isso . acho que as coisas acabam sendo assim . mesmo sendo tudo o que vejo como o vento que sai pela boca em forma de assobio . uma brisa fresca . tao leve em seu peso de dar voltas e voltas como a vida . acho que tem palavras saindo pela boca em forma de coisa palpável . acho que e a vida avisando alguma coisa pra ela mesma . ai sei la... vou parar de escrever nada com nada e voltar a desenhar . acho que encontrei uma estrada pros meus pés caminharem saltitantes .

. é? .

. dizem que o mundo é redondo... mas eu nunca vi... .

. nankin na água .

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e que tudo seja como o que se dissolve na água
como o que se dissolve em si mesmo
pra que tudo seja como o tempo
ilusório
transitório
escorregadio
passando tão rápido
que nem mesmo tem tempo de acabar

obrigada a falta de sentidos

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. pedrinho .

. porque essa coisa de ter alma grande é pra poucos . de ter palavras maciças passeando na boca . de ter a palavra escrita como âncora pro mundo . de ter o mundo como palavra com nitidez de caos . de ter a vida como algo que não se tenha . porque ela escapole das mãos . de ter o ato como poema . mesmo que sem rima . mesmo no silêncio . mesmo que sem tema . a palavra por si só já basta na extremidade das mãos . por coisas extremas . das coisas estreitas . no meio de entranhas . estranhas palavras . porque essa coisa de ter amor demais é pra poucos e mais poucos ainda . porque amor não é coisa que se sinta com a cabeça não . por isso escrever sobre amor é quase impossível . palavra imperecível que mora no meio dos poros . nem importa muito, né, pedrinho? . o que importa de verdade na verdade a gente nunca vai saber mesmo... . talvez seja isso . um sorriso se abrindo no vento ... . lento . atento . pro corpo se encher mais um dia de palavras vivas . sempre pronto . pra mais uma poesia .